A Influência das Estatísticas na NFL

Revolução na Análise de Desempenho Esportivo e Suporte para Tomada de Decisão

Moneyball – O Homem Que Mudou o Jogo (Reprodução/Facebook)

O Início do Movimento

Se compararmos ao nosso futebol da bola redonda a quantidade de estatística ou dados analisados que eram implementados no jogo dez anos atrás com aquelas praticadas hoje em dia, teríamos uma diferença absurda e, em alguns casos, assustadoras. Pois bem, essa revolução iniciada nos esportes durante os anos 2000 já foi retratada até no cinema, por Brad Pitt, com o filme Moneyball – O Homem Que Mudou o Jogo (Columbia Pictures, 2011). No filme, baseado em um livro de mesmo nome, Billy Beane (Brad Pitt) general manager do Oakland A’s, um dos times mais pobres da liga nacional de Baseball, por necessidade de criar algo mais diferente afim de fortalecer seu time, se junta a Peter Brand (Jonah Hill), um mestre da analise de desempenho via números. Os dois juntos resolvem implantar um algoritmo criado por Peter em sua tomada de decisão em qual jogador contratar, manter e mandar embora. Na época Billy foi muito criticado e chamado de louco por analistas experientes, que o acusavam até mesmo de tentar acabar com o jogo que conhecemos.

A estratégia demorou mas de certa maneira funcionou, Oakland chegou a uma sequencia de 20 vitorias seguidas em 2002, mesmo sendo o time com folha salarial mais baixa da liga. Nos dias de hoje, Oakland continua insistindo em seu método, e mesmo sem nenhum título, é ao menos um time competitivo e frequentemente participa dos playoffs.

Mesmo sendo em um esporte que depende mais de uma performance individual, o movimento pioneiro de Billy abriu portas para o mundo do esporte coletivo utilizar todos os dados disponíveis a fim de analisar tendências, criar previsões, possibilidades de sucesso e até medir o real impacto de cada jogador em seu time. E hoje podemos ver que seja na NFL, NBA, Futebol, NHL, quase todos os times e franquias possuem um departamento dedicado a Análise de Desempenho, ou estatísticas. Frequentemente vemos times desses mesmos esportes contratando jogadores que ninguém nunca ouviu falar, ou dispensando jogadores que todos achamos que ainda tem lenha para queimar. Pois bem, isso reflete o uso estatístico da análise de desempenho, influenciando a tomada de decisão.

O Impacto na NFL

NFL Logo (Facebook/Reprodução)

O Futebol americano, mais especificamente a NFL, como liga, teve seu inicio em 1920, ou seja, o jogo é disputado e comentado há mais de 100 anos. Todo esse período de disputa da espaço para um milhão de formas de entender, analisar, aprender e ensinar o jogo. E é justamente nesse quesito que as análises feitas por maquinas, por meio dos números, estão mudando a forma de se olhar para o jogo em campo. Essa mudança não necessariamente é bem vinda por todo mundo. O uso – de certa forma exagerado – dessas analises acabou criando linhas opostas de pensamento e opinião ao redor da liga (como todo e qualquer outro assunto no mundo). Temos a linha que abraça as estatísticas, que as vê como necessárias e também como a principal ferramenta para a tomada de decisão, seja ela durante o jogo, em negociações ou qualquer outra situação que ela possa ser implantada. E temos também o outro lado, que apesar de reconhecer a importância das estatísticas, enxerga nela apenas mais uma ferramenta dentre tantas outras disponíveis.

O Novo x O Velho

Toda essa discussão e tendência pode ser vista a cada rodada na NFL, sobretudo com a invasão de treinadores da nova geração que, curiosamente (ou não), tendem, por exemplo, a se apoiar mais nas estatísticas para posicionar seus times nas decisões de quarta descida, mantendo ou não seu ataque em campo. Segundo matéria de outubro de 2021, da Sports Illustrated, de 2010 a 2021 as tentativas de quarta descida na liga, pularam de 0,945 por jogo, para 1,362. Hoje a liga tem um total de 18 treinadores abaixo dos 50 anos, tendo o seu mais novo, Sean McVay com 34, um dos mais inovadores e agressivos treinadores. Já Pete Carroll, com 69 anos, é um dos mais conservadores, sendo usualmente muito criticado por isso. É inegável que idade exerce influência sobre o assunto, mas também não pode ser considerada uma regra. Bill Billichick, com 68 anos, é ainda considerado o melhor treinador da liga, e por pessoas que o rodeiam, um treinador que se adapta muito facilmente a qualquer tipo de nova situação.

A Crítica

A maior crítica contra as estatísticas se deve ao motivo que ela de certa forma “retira” do jogo o que os americanos chamam de “gut felling”, ou seja, relevam a parte da experiência de quem comanda e acaba se tornando uma bengala para treinadores e coordenadores. Por exemplo, resolver ir numa quarta descida simplesmente porque as estatísticas dizem que a chance de sucesso é alta. Em caso de fracasso, o treinador pode sempre se defender dizendo que as estatísticas o suportaram para aquela decisão. Para quem é mais antigo e assiste o esporte há mais tempo, não se trata apenas da chance estatística de sucesso, mas como seu quarterback está jogando, como sua defesa está jogando, quem são seus recebedores, qual a condição do seu kicker, contra qual adversário. Todos esses fatores não são levados em conta no número estatístico.

Os Modelos

Hoje, na NFL, os dois maiores modelos utilizados para análise estatística de desempenho são o do Football Outsiders e EdjSports, e em cada website é bem detalhado o modelo e como eles calculam para literalmente prever o que vai acontecer e em cada cenário possível. Ambos modelos são utilizados por franquias e tem o atestado de especialistas da NFL, que inclusive fazem parte de programação dentro do jogo de videogame Madden NFL.

Experiência Ainda a Melhor Arma

A principal deficiência dos modelos estatísticos é que eles demandam muito tempo para analisar os números e situações, o que torna impossível a utilização dos mesmos em tempo real. Durante o jogo, um treinador se baseia em informações oriundas de cenários parecidos do passado em comparação ao que ele vive naquele momento. Assim, ao se valer apenas de um modelo estatístico, muitas bagagens daquelas situações vividas podem estar sendo deixadas de lado, o que faria com que o treinador tivesse que tomar a decisão confiando cegamente nos números ou simplesmente usando o seu chamado “gut felling”. Outro fator que entra em questão é o de que a própria NFL não permite a analise e utilização de computador em tempo real. Durante o jogo, a liga permite apenas a famosa canetada, o que torna impossível para um ser humano, calcular em 40 segundos (tempo para a jogada acontecer) qual seria a melhor probabilidade estatística para cada uma das jogadas. Essa discussão parece apenas ser mais uma que nunca encontrará um denominador comum para os dois lados, e ainda será carregada por muitos anos dentro da liga.

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